Sozinha, luta pela vida, quando se apercebe que para ser feliz tem que viver e não sobreviver.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

E tudo começa com um fim

   Quando há pessoas mais importantes do que tu mesma na tua vida, fazes de tudo para lhes dares tudo o que é humanamente possível e impossível. E para isso percorres caminhos obscuros.

   Apesar de ainda me encontrar na casa dos vinte anos de idade já passei por algumas adversidades. Não, não tive uma mãe abusadora ou um pai alcoólico. Mas passei por coisas que jamais imaginaria ter que passar.

   A minha família sempre me conseguiu dar tudo o que necessitei, uma boa casa, estabilidade monetária, uma família unida, uma educação de excelência e todas a bases de uma família feliz. Mas tudo isso mudou há  seis anos atrás, quando perdi a base mais importante da minha família. A minha mãe.

   Numa tarde ensolarada, num churrasco de família, uma tradição já muito antiga da nossa família onde memórias espantosas eram criadas, estavamos todos à volta da mesa, a minha mãe passeava à volta dela, com um prato de sopa para dar à minha irmã, e caiu a queixar-se do peito. Ficou inconsciente e nunca mais acordou.

    No final daquele dia, descobrimos que a minha mãe sofrera de um ataque cardíaco fulminante. Era uma pessoa saudável, ninguém podia antever. Eu considerava a minha mãe a minha melhor amiga, contávamos tudo uma à outra, e saber que a perdemos assim sem um aviso foi assustador.

   A minha irmã tinha apenas três anos, a pequena Allegra mal conseguiu conhecer a mãe, mas eu sabia que a minha mãe a amava com todo o seu coração. Tal como eu a irei amar.

   O meu pai morrera naquele dia com ela, pelo menos o seu espirito e o seu coração ficaram enterrados com ela naquele cemitério.

   Eu tinha que ser forte por todos nós. E pela memória da minha mãe.

* * * 
   Não foi preciso muito tempo para a vida como a conhecia acabar de vez. O meu pai não conseguiu superar a morte da minha mãe. E a cada dia se desligava cada vez mais do mundo. De mim e da minha irmã, do resto da família. A única coisa que ainda o mantinha ligado à Terra era o seu trabalho, criou uma empresa de gestão de investimentos, muito importante e bem cotada. Envolveu-se no trabalho de corpo e mente. 
   Eu voltei para casa depois da morte da minha mãe, para ajudar o meu pai com a minha irmã, não a queria ver ser criada por uma ama, não era o que a minha mãe queria e sem dúvida alguma que isso não iria acontecer. Para isso congelei a minha matrícula na faculdade de letras, onde me encontrava a tirar o curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Era naquela casa onde eu deveria estar.
   Todas as noites a minha irmã me perguntava pelo meu pai. Ele nunca estava em casa à hora de a deitar. Ela ficava triste. Não é que o meu pai não a amasse, mas era doloroso para ele estar com ela. Ela tinha os olhos castanhos profundos da minha mãe e o seu cabelo castanho com tom caramelizado. Depois de a deitar eu voltava par o meu quarto para estudar, e ficava sempre até tarde, queria ao máximo manter-me a par com a matéria que estava a perder, e ouvia os passos do meu pai e os passos paravam no quarto ao lado do meu, o da minha irmã. Uma certa noite eu passei pelo quarto dela e lá estava ele, a ajeitar a roupa da cama da minha irmã e depois sentou-se na cadeira onde a minha mãe embalava a minha irmã, e onde segundo ela me embalou também quando era um bebé.
  Ele amava-nos, mas não conseguia mostrar-nos esse amor, porque o amor da vida dele morreu e não se conseguiu despedir dele.
   O desapego pelo mundo continuou mais dois anos assim, mas já nem nos negócios se conseguia concentrar, e isso o levou á ruína. Os investidores começaram a larga-lo, um a um, e as coisas não ficaram fáceis. Ele tentou ao máximo, mas não conseguiu. Envolveu-se em investimentos de alto risco que não vingaram. Mas não ficou por aí,  com o seu desapego até para os negócios, dois associados roubaram fundos de investimentos e quando as autoridades descobriram foi indiciado culpado e condenado a seis anos de prisão.
Eu não podia deixar a minha irmã a viver com esse tipo de influências ao pé dela, e crescer com esse tipo de memórias constantes. Ficamos as duas órfãs, de pai e mãe. E tínhamos que fugir daquela vida, daquelas memórias.

Tínhamos que desparecer da nossa cidade natal, aquela já não era a nossa casa. Tudo o que tínhamos foi perdido, num espaço de um ano. Tínhamos que começar de novo.

A minha melhor amiga, tinha-se mudado para Nova Iorque, era a única pessoa em quem confiava. Sabendo da minha situação e da minha irmã disse que podíamos ficar com ela até que as coisas se resolvessem. Até que a nossa vida estabilizasse.

Eu não queria mais olhar para trás. Queria partir, e aquele era o momento.


Sem comentários:

Enviar um comentário