Sozinha, luta pela vida, quando se apercebe que para ser feliz tem que viver e não sobreviver.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
1. A de Aleggra
Dá para imaginar que depois de seis anos a viver em Nova Iorque me habituasse a esta agitação. Mas não consegui.
Depois de chegar a Nova Iorque eu e a Allegra fomos viver com a Kristen. Ela foi o nosso maior apoio na cidade e o único. Ela veio para aqui viver desde que acabamos o secundário, entrou para a NYU para licenciar-se em jornalismo. Sempre foi uma rapariga muito ambiciosa e audaz. Duas qualidades bem necessárias para a carreira. É desnecessário dizer que conseguiu acabar o curso com louvor, e que conseguiu uma óptima colocação num dos mais importantes jornais periódicos da cidade.
Vivemos com ela dois anos, e foram espantosos. A Kristen decidiu que depois de namorar por quase dois anos com o Jonathan era a altura de viverem juntos. E graças a ela conseguimos manter a mesma casa e por um preço mais reduzido.
Manter uma casa e uma criança na cidade era dispendioso, mas o senhorio ao sentir-se complacente com a nossa situação decidiu baixar a renda para que pudéssemos ficar ali.
As lutas mensais eram regulares, mas não deixava que faltasse nada à Allegra. Eu já trabalhava na 5ª Avenida há três anos, notei que tinha jeito para o atendimento o público e era uma boa vendedora. Mas isso não chegava, a Allegra estava agora com nove anos de idade e estava num colégio interno. Custava-me imenso não só monetariamente mas também emocionalmente. Eu amava aquela miúda com todo o meu amor. Vivia para ela. Ter que a colocar naquele colégio era a melhor escolha que eu tinha, garantia uma óptima educação e valores. E tinha sempre os meus fins-de-semana para estar com ela.
O trabalho na loja era extenuante, mas mesmo assim tinha que fazer outros trabalhos para fora. Como tinha um grande à vontade com o espanhol e alemão, tornei-me tradutora freelancer, traduzia apenas artigos e livros. Não era muito mas já era uma grande ajuda.
Não tinha tempo para encontros ou namorados, já os tive, mas a Allegra era a minha principal preocupação.
Estive apaixonada, nada digno de nota. Pequenas paixões que acabavam quando percebiam que além de mim teriam que lidar com uma criança mais pequena. Não era muito atractivo para eles.
A Kristen tentava sempre juntar-me com amigos do Jonathan, mas eram demasiado aborrecidos. Rapidamente perdia o o interesse, no momento que começavam a falar dos seus trabalhos aborrecidos como contabilistas ou cartórios. Gostava de homens ambiciosos, que soubessem o que queriam e não que não descansavam enquanto não o tinham. Podia ser demais, mas era o meu desejo, queria um sobrevivente, um lutador. Que compreende-se um pouco a minha luta.
Depois de acabar mais um dos jantares cupido da Kristen no apartamento dela, ela ligou-me. Naquela noite tinha-me apresentado um professor da NYU. Não era um contabilista aborrecido, não era à primeira vista um homem muito atraente. Quando olhava-mos pela primeira vez não notávamos no sorriso envergonhado mas charmoso, ou nos olhos castanhos claros, com tanta profundidade. Era interessante, como ser humano. Mas faltava algo.
- Então Lizzie, este era aborrecido? - O tom de Kristen era gozão. Ela sempre achou que eu desejava o homem perfeito que não existia. - Este em comparação com os outros espécimes, como tu os chamas, é de longe o menos aborrecido.
- É sim, sem dúvida. Mas sei lá Kris faltava algo.
- Desejas o impossível. E se nunca o encontrares? Vais ficar sozinha para o resto da tua vida? - Achava que era demasiado triste ainda estar sozinha com esta idade e com uma criança entregue a mim.
- Não, não acho que vá ficar sozinha para o resto da minha vida. Quem sabe encontrarei alguém.
- Espero bem que sim. Não quero que fiques sozinha. - O silencio era incomodativo. Nenhuma de nós sabia mais o que dizer, porque esta conversa já se tornava repetitiva. - Lizzie tenho de desligar o Jonathan está a precisar de ajuda na cozinha. Falamos amanhã, sim?
- Claro que sim, também tenho que acabar de traduzir um artigo. Não te preocupes. - Eu já tinha acabado de traduzi-lo. Apenas queria acabar com aquela conversa desconfortável.
- Trabalhas demais. Adeus. - E ela desligou.
A semana passou com muito trabalho, muitas vendas e muitas shoppaholics a quererem todas as peças da nova colecção ilimitada. Mas a parte boa é que ia ter tempo com a minha pequena princesa.
Graças a sociabilidade excessiva de Allegra criou um grupo de amigas na escola muito bom, assim não se sentia tão sozinha. Uma das colegas dela era de Nova Iorque e os pais dela a traziam todos os fins-de-semana. Já tinha tudo programado para aquele fim-de-semana, o bolo favorito dela, a receita de bolo de chocolate da minha mãe, uma grande panóplia de filmes para vermos no sofá, e o nosso pijama a condizer.
A Allegra chegou do colégio na sexta-feira ao final da tarde. Quando a abracei senti-me em casa. Era reconfortante estar com ela, abraça-la e saber que estava segura.
Passamos o fim-de-semana a ver filmes. O frio tinha começado a chegar a cidade, e preferimos ficar em casa de pijama a ver filmes e a comer bolo de chocolate, aninhadas no sofá numa manta.
- Mana posso te fazer uma pergunta? - Cada vez que ela olhava para mim com aqueles olhos castanhos, arrepiava-me. Tinha receio das perguntas que ela poderia fazer.
- Diz querida. - Tinha cada vez mais receio. Havia coisas que ela não sabia. E ainda não estava preparada para saber.
- Porquê que não tens um namorado? - Ela parecia envergonhada. Escondia alguma coisa.
- Porque ainda não encontrei uma pessoa a quem chamar namorado. - Não podia deixar de me rir, porque sentia um alivio enorme por não ter que lhe explicar tudo. - Mas há mais alguma coisa nessa cabecinha.
Ela estava indecisa, se dizia ou não. - Sabes a minha amiga Rose? - Eu confirmei com a cabeça, para que ela continuasse. - Ela tem duas mães. Tu também gostas de senhoras?
Nunca ri tanto na minha vida, com alguma pergunta. E ela estava a espera da minha resposta. Impaciente.
- Não Allegra, não gosto de senhoras. Embora não tenha problema nenhum gostar-se de senhoras. Ou de senhores gostarem de outros senhores.O amor não escolhe géneros. Basta gostar.
Para mim era importante mostrar-lhe que havia liberdade. Liberdade de amar e de expressar. Era importante para mim que ela aprendesse as mesmas coisas que a minha mãe me ensinara. Porque assim sentia que o trabalho que fiz, foi bem feito. A mulher que sou hoje é porque tive a melhor mãe do mundo. A mãe que tinha tanto amor para dar, sem querer nada em troca.
Eu não conseguia deixar de pensar nela todos os dias. Era um espírito que estava sempre presente. Para mim e para a minha irmã.
E era isso que queria que ficasse sempre presente na vida dela, que embora não a tivesse conhecido, sabia que foi muito amada e esperada por ela. A Allegra iria sempre saber disso.
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